Apesar de a cannabis estar a ganhar cada vez mais popularidade, sabemos que os nossos antepassados já utilizavam esta planta os seus derivados há milhares de anos atrás. No entanto pretendemos aprofundar toda a história do uso da cannabis para fins medicinais.
Sendo que esta planta desde cedo teve uma relação próxima com a humanidade, seja a nível medicinal, religioso e mesmo recreativo. Aqui iremos abordar pormenorizadamente a história da cannabis mecidinal.
Breve história da cannabis
A Cannabis Sativa L é uma planta que pertence à família cannabaceae, desta espécie derivam subespécies e variedades. Não se consegue precisar ao certo o ano e a região onde o canábis foi descoberto e utilizado pela primeira vez. No entanto, sabemos que o cânhamo (subespécie da cannabis sativa) já era cultivado no neolítico, ao redor do ano 8000 a.C.
Alguns investigadores apontam a sua origem remonta à Ásia Central, onde o cânhamo era utilizado. Também existem relatos que a planta canábis já crescia e era cultivada nas montanhas dos Himalaias e em localidades do Noroeste da Índia, em regiões como Afeganistão, Punjab, Uzbequistão.
Primeiros usos medicinais da canábis
Quando nos referimos à canábis medicinal, os seus primeiros experimentos quanto a fins terapêuticos ocorreram na Ásia Central, em países como a China. Sendo que desde muito cedo, esta planta medicinal também já era utilizada no antigo Egipto, Índia e posteriormente no Médio Oriente.
Na China, após se aperceberem que a canábis era uma planta com propriedades medicinais efetivas (1500 a.C), o uso da mesma começou a ser utilizada sobretudo para: aliviar a malária, reumatismo, entre outras doenças severas.
- Também na Índia, o uso desta planta para fins medicinais e religiosos foi implementado desde muito cedo. Usando-se sobretudo como analgésico, indutor de sono, apaziguador de febre e alguns acreditavam que esta planta medicinal prolongava a vida e acelerava a mente.
- No Antigo Egipto, era utilizada para tratar inflamações, glaucomas e para realizar enemas.
- Também no Médio Oriente viam a planta canábis como uma das mais importantes a nível medicinal, onde esta seria utilizada para fazer infusões, era mastigada, fumada e ainda ingerida.
Mais tarde, na Antiga Grécia e no império romano a marijuana era utilizada com o objetivo de suavizar a inflamação, edemas, tratar diversos tipos de dor e ainda com um intuito lúdico e religioso.
Já na Idade Média, na Europa, utilizava-se a canábis para tratar uma vasta lista de infecções, dores e inflamações. No século XI a canábis formava parte do boletim da maior parte das ervanárias.
Proibição do uso medicinal da cannabis
Tal como ocorreu com muitas outras plantas e produtos medicinais utilizados em rituais, sobretudo na América, África e Ásia, os colonizadores europeus ocuparam-se por proibir vários usos e cerimónias ancestrais.
Os primeiros a avançar com estas medidas foram os britânicos, impondo um imposto a todas as suas colónias índias que utilizassem a canábis em qualquer das suas formas ou fins. Com a justificação de que queriam manter a saúde e a sanidade dos nativos, visto que a marijuana crescia abundantemente por todo o país, pois fazia parte da sua medicina tradicional.
Sendo que posteriormente imensos países e impérios começaram a impor regras e a proibir a canábis. O império francês, por parte de Napoleão, em 1800 proibiu o seu consumo aos seus soldados, com receio que diminuíssem a sua eficácia. Seguidamente, o Império Otomano, Marrocos e Grécia e assim no século imensos países proibiram completamente a marijuana XX, tais como:
- México
- Canadá
- Reino Unido
- Austrália
- Países baixos
- Polónia
- Entre muitos outros.
Em 1937, foi a vez dos Estados Unidos proibirem a canábis, fosse para fins terapêuticos ou recreativos. Detiveram imensas produções de cânhamo industrial e substituíram-nas por plantações de algodão, madeiras e petróleo. A indústria petroquímica eliminou a necessidade da canábis como matéria prima, substituindo o cânhamo por outros componentes e elementos.
Seguidamente, no ano de 1961, na Convenção Única de Drogas das Nações Unidas, estabeleceu-se eliminar totalmente o uso mundial da canábis. Sendo que a conferência tinha uma nota da OMS (Organização Mundial de Saúde) afirmando que não havia nenhuma justificação para o uso médico da canábis.
Cannabis na era moderna
Com o avanço da ciência e o estudo intensivo acerca da planta Cannabis sativa, as coisas começaram a mudar visivelmente. Mais à frente apresentaremos alguns dos feitos que contribuíram de maneira determinante para o avanço e conhecimento atual sobre o canábis em geral:
- Em 1940, o químico Roger Adams isolou o CBD pela primeira vez;
- Em 1964, Raphael Mechoulam e o seu colega Yechiel Gaoni isolaram o primeiro princípio ativo, o Tetrahidrocanabinol (THC);
- Em 1973, os dois investigadores referidos previamente, identificaram os efeitos psicoativos do THC na mente.
- Década de 1990, foi descoberto que todos os humanos e animais vertebrados possuem um Sistema Endocanabinóide.
Com todos estes feitos e descobertas alcançadas, a perspetiva e o conhecimento em relação ao canábis evoluiu consideravelmente, o que fez com que diversos países o descriminalizassem e outros legalizassem para fins medicinais e certos casos recreativos.
Sendo o Uruguai, no ano de 2013, a tornar-se o primeiro país a legalizar a venda, distribuição e cultivo desta planta. Seguidamente, o Canadá converteu-se no segundo país do mundo a legalizar o canábis recreativo, sendo que, à data de redação em 2023, o seu consumo recreativo e terapêutico é legal em mais de 6 países no total.
Sendo despenalizado ou permitido para fins medicinais em vários países, tais como Portugal, Luxemburgo, Suíça, Alemanha, Argentina, Dinamarca, etc.
Aplicações modernas da canábis como medicina
O interesse pela aplicação da canábis como medicina, está atualmente em ascensão em diversas áreas do mundo. O isolamento de muitos dos componentes ativos encontrados nesta planta e a descoberta do sistema endocanabinóide permitiram que se desenvolvessem vários medicamentos e tratamentos derivados da Cannabis Sativa L.
Os dados de estudos clínicos indicam que os canabinóides aliviam os sintomas de algumas doenças e transtornos psicológicos. Em diversos casos estes componentes utilizam-se como tratamento complementar.
Aqui deixamos alguns dos exemplos em que as propriedades medicinais do canábis se revelou eficaz:
Como antiemético:
Em estudos clínicos controlados compararam os efeitos antieméticos do THC com os de um placebo e um outro fármaco antiemético em pacientes com náuseas e vómitos, relacionados com a quimioterapia contra o cancro. Chegando à conclusão de que o THC e outros agonistas canabinóides foram mais eficazes que o placebo e tiveram níveis de eficácia semelhantes ao fármaco antiemético.
Para estimular o apetite:
Já existem à venda diversos fármacos que contêm canabinóides, como é o caso do Marinol que contém THC, como um estimulante de apetite; o dronabinol e a nabilona, que ativa os recetores endocanabinóides; entre outros medicamentos já existentes.
Para a dor neuropática e esclerose múltipla:
Os canabinóides demonstraram ser eficazes no tratamento de espasmos musculares e dor neuropática. O produto mais comprovado foi o Nabiximol (Sativex), um extrato de canábis normalizado com quantidades aproximadamente iguais de THC e CBD.
Para cuidados paliativos na oncologia:
Os derivados da Cannabis Sativa demonstraram uma contribuição para a qualidade de vida em casos clínicos paliativos, como o cancro terminal. Tal como o CBD, verificou-se útil no tratamento de epilepsia resistente em crianças e adultos.
Transtornos de ansiedade e doenças anti-inflamatórias:
Sobretudo o canabinóide CBD (Canabidiol), possui efeitos moduladores do sistema neuro-imunológico e a resposta anti-inflamatória, tendo a capacidade para ativar determinadas células do tecido nervoso, que atuam como imunocompetentes.
Conclusão:
Com este artigo, dentro de vários aspetos que podemos ter conhecimento, conseguimos verificar que a longevidade da história da cannabis e que esta foi uma das plantas pioneiras, utilizadas a nível medicinal por parte dos humanos. Sendo que ao decorrer da história esta planta foi utilizada por diversos tipos de nações e com distintas utilidades.
O cânhamo/cannabis era também utilizado a nível têxtil, alimentar, para o fabrico de utensílios e posteriormente, alguns casos para uso recreativo. Após o estudo mais aprofundado dos seus componentes, conseguiu-se estudar de forma mais isolada alguns dos seus componentes e a partir daí criar fármacos benéficos.